Tem sido uma caminhada só minha, por escolha. Raramente toco no seu nome ou falo do que se passou e de como ou porquê das coisas acabarem.
Estava crente que estava a caminhar no sentido correcto. Seis meses passados pensei que já tivesse avançado mais no caminho, mas afinal parece que tenho dado passos pequenos, ou então regredi muito hoje.
Não voltaria atrás, tenho a noção perfeita disso. Mas viver porta a porta tem-se demonstrado muito mais difícil do que previa. Não invejo a vida que ele lhe dá... O estômago já não enrola quando o encontro... mas queria tanto poder voltar a sair à rua e dar os meus passeios com a cadela sem considerar a hipótese de que me cruzar com o passeio dele com a cadela, de quem tenho umas saudades imensas. Insiste em fazer conversa de ocasião, onde me conta tudo o que faz na vida, sem eu perguntar o que quer que seja. Insiste em partilhar a vida da qual deixei de fazer parte há seis meses. Pior: insiste em falar como se continuasse a ser a pessoa que era há seis meses atrás. E não é. Nem ele, nem eu. Mas ele não faz ideia que não sou a mesma. Nunca me conheceu. Sempre fui um parênteses... Aquelas pausas a que não se liga e se passa à frente. E passados dezasseis meses, assim o fez.
Mas, para mim, ele nunca foi um parênteses. E dediquei-me a conhecer a pessoa que ele deu a conhecer. E os meus sonhos foram crescendo lado a lado com os dele: a casa na costa alentejana que ele gostaria de ter, os jantares e serões nas noites de semana, onde adormecia no sofá enquanto lhe acariciava a nuca, os jantares na minha vila do coração, com caminhadas e conversas madrugada dentro, sentados na areia da praia do norte... Uma amizade que se solidificou... Sonhos que se fizeram meus, sem nunca ter sonhado com eles, nomeadamente a hipótese de ter um filho...
Transformaram-se em meus, alguns dos seus sonhos. Acho que é isso que acontece quando se ama alguém.
Mas a reciprocidade não existiu.
Não sou ninguém para julgar o sentimento das outras pessoas, mas sei por experiência própria que sou boa avaliadora de carácter. Hoje, volvidos seis meses, vejo-o de outra forma, ainda com o coração, tenho de admitir. E o que vejo é alguém que não sabe amar a não ser que seja algo que alimente o seu ego. E assim voltou para um amor de adolescência, daqueles em que ela é linda e causa inveja aos amigos, onde o amor é lindo e se perdoa um estalo e um pontapé, porque já se passaram muitos anos. Em que a outra pessoa casou e teve um filho, mas não é feliz. Em que se combina um encontro onde perceberam que ainda sentiam algo um pelo outro, passados treze anos...
Poderia dizer-lhe não o fazer, para não desistir de nós. Mas há alturas em que se tem de dar com os burrinhos na água sozinho, não há outra forma...
E, na realidade, até já eu tinha desistido...
Dos meus sonhos, nem um se transformou num sonho para ele. Insistir no quê?
Desculpou-se termos reatado uma vez que decidi afastar-me.
Disse que nunca deveria ter iniciado nada comigo quando percebeu que eu estava disposta a dar mais do que ele.
Dizer mais o quê?...
Não sou prepotente ao achar que não sabe amar, só porque não amou como eu queria que o tivesse feito, mas a realidade é que eu hoje não sou a mesma que era há seis meses e isso é bom, consigo analisar tudo mais claramente e tentar entender qual foi o papel dele na minha vida.
Perfeito seria ganhar o euromilhões e mudar de casa...